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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Aprendi a dizer adeus

Despedir-se do passado é o primeiro passo para viver novas histórias. As perdas transformam, fazem amadurecer e abrem espaço para o inesperado da vida. Basta ter coragem de passar por elas.


Texto: Rita Loiola
Fotos: Daniela Toviansky 
Beleza: Élcio "Maizena" Aragão/Agência First 
Produção de moda: Gabriela Nascimento 
Fotodesign: Felipe Gressler


Deixar ir é... Viver profundamente as despedidas, para aceitá-las e superá-las. Como Renata, que fez questão de estar ao lado da mãe em seus últimos meses de vida.

No dia em que fez 33 anos, Renata Oliveira recebeu a notícia que mudaria sua vida. A doença de sua mãe, Jacira, não tinha mais cura. Lutando contra um câncer de intestino havia quatro anos, ela recebeu um ultimato dos médicos: ou partia para uma quimioterapia agressiva, que poderia levar à morte, ou interrompia o tratamento e esperava sua hora chegar. “Minha mãe decidiu parar com a químio. E ficamos cara a cara com a dor de um fim próximo”, conta Renata.

Elas estavam enfrentando a fase aguda da doença, com hemorragias constantes e internações. Renata, que é fisioterapeuta, passou a trabalhar meio período para cuidar da mãe. Desde 2006, quando o diagnóstico foi feito, elas se acostumaram a passar as festas de fim de ano no hospital. Nos outros meses, Jacira ficava bem e voltava a seu posto de chefe e coração da família - viúva, ela morava com a filha, a mãe e um sobrinho. “Era terrível imaginar a vida sem ela”, diz Renata.

No entanto, desde aquele seu aniversário, em 14 de setembro do ano passado, todos foram obrigados a pensar em uma existência em que Jacira não estaria presente. Os papéis mudaram, e a filha tornou-se a fortaleza da casa, arcando com as responsabilidades. Entre momentos de sofrimento, esperança, alegria e angústia, a família inteira foi aprendendo a lidar com a nova realidade, em que a morte era uma sombra constante.

Em janeiro, sentindo o fim chegar, mãe e filha decidiram mudar-se para um quarto da hospedaria de cuidados paliativos do Hospital do Servidor Público Municipal, um casarão na capital paulista com quartos e profissionais dedicados a aliviar o sofrimento dos pacientes em fase terminal. Renata acreditava que, nesse lugar, enfermeiros, médicos e psicólogos poderiam ajudar a diminuir a dor física e psicológica da despedida iminente. “Foi quando pude deixar de me preocupar com os horários de remédios e refeições e, realmente, estar com a minha mãe. Voltei a ser apenas filha e a viver os momentos ao lado dela”, conta.

Durante esse tempo, Renata relembrou com Jacira episódios bons e ruins da vida em comum e viveu cada minuto como se fosse o último. “Ver a minha mãe daquele jeito fez com que eu me sentisse pequena, como uma formiguinha, diante de um acontecimento incontrolável e que eu sabia que ia acontecer”, diz. “Foi um período de aprendizado intenso. Falávamos mais e ficamos unidas como nunca. Descobri uma força dentro de mim que não sei de onde vem. Acho que essa foi a herança mais importante que ela me deixou.” Um mês depois, Renata assistiu ao último suspiro da pessoa que mais amava. “Foi uma morte digna, que soube respeitar seu tempo, seus últimos momentos. Vi sua respiração ficando fraca e percebi que era uma história que terminava.”

Para Renata, outra vida começou a partir daquele dia. Ao se despedir da mãe, ela abraçou o desconhecido, dando o primeiro passo em direção a um modo de viver que ainda estava para ser escrito. Esse é o poder trágico que todas as perdas carregam: em uma face, o sofrimento profundo de deixar algo ir embora; na outra, a possibilidade do novo. “A mudança e as perdas acontecem para que o velho deixe de existir e o inesperado surja”, diz o geriatra Franklin Santana Santos, organizador e um dos autores do livro A Arte de Morrer – Visões Plurais. “A morte nos obriga a olhar para outras coisas, amplia nossa visão, traz situações novas. Quem não quer lidar com a morte não quer lidar com a vida.”

"A perda traz sofrimento e amadurecimento. Põe
nossos valores à prova. É o motor mais poderoso
para fazer pensar sobre o que realmente importa"

Viva e deixe morrer

Vida e morte, perda e ganho são lados da mesma moeda desde a Antiguidade. Para algumas correntes da filosofia grega, quem sabe morrer é aquele que aprendeu a viver. Assim, morte e vida completam-se. Esse veículo poderoso de renovação está presente em suas mitologias, como no episódio do nascimento do tempo, resultado da separação dolorosa entre o céu e a terra. É o mesmo princípio de nossas narrativas indígenas de criação, como a que conta que a vitória-régia surgiu depois que uma índia se afogou por amor à lua - é por isso que ela abre suas pétalas à noite. São histórias que tentam dar sentido à dor do adeus e ao milagre dos nascimentos.

“A perda traz sofrimento e amadurecimento. Rompe os laços que construímos, destrói as ilusões, põe nossos valores à prova. É o motor mais poderoso para fazer pensar sobre nossos dias e o que realmente importa”, diz Franklin. E a morte, a grande perda a que todos estão expostos e destinados, eleva essa reflexão à última potência. “A melhor maneira de se preparar para a última despedida é viver o dia presente, pleno de significado. Essa é a reflexão mais profunda que a morte nos traz.”

As perdas, assim, seriam o termômetro mais confiável de como anda a temperatura da vida. Quanto mais repleta de significados, menos as despedidas são um temor. Deixam de ser tabus para se tornar motores de renovação, parte do cotidiano. Sem esquecer, é claro, todo o sofrimento e dor que trazem. “Num sentido profundo, não é possível ganhar nada sem a mediação de uma perda”, diz Julio Cabrera, professor de filosofia da Universidade de Brasília e autor de livros na área. É a falta que nos dá a medida dos ganhos, assim como a morte põe à prova o valor da vida. Nesse sentido, falar sobre despedidas e perdas ajuda a tornar nascimentos e novidades mais plenos.

“Nascemos para a morte, mas toda a estrutura das nossas sociedades constrói o esquecimento desse fato e nos atordoa por meio de diversões, tarefas profissionais e atividades cotidianas que não nos deixam pensar na nossa condição mortal”, afirma o professor. “Assim, quando a dor e a morte aparecem, surgem como se fossem fenômenos excepcionais, raros e intempestivos, para os quais nunca estamos preparados.” Viver profundamente as despedidas é a melhor maneira de superá-las. Nascimento, amadurecimento e morte é o caminho natural que todos os homens trilham.

“Vivemos em sociedades construídas em torno da rejeição, exclusão ou esquecimento da morte. Juventude, beleza e bens são efêmeros e podem acabar a qualquer momento. Não deveríamos nos apoiar neles de maneira total”, diz Julio. “Morte e mortalidade são vistas como ceifadoras por causa dessa maneira falsa de organizar nossa vida. Seríamos melhores e mais plenos se aceitássemos essa ideia tranquilamente.”


Deixar ir é... Reinventar nossas relações. Como Elizabeth, que transformou a dor de ver as filhas sair de casa em mais tempo para si e para o marido

Eles passarão, eu passarinho

Quatro meses depois de perder a mãe, Renata ainda está reaprendendo a viver e a compreender essa ruptura definitiva. Em seus dias, esbarra nas lembranças, assusta-se com os horários vagos e surpreende-se com as próprias reações. É esse o movimento natural de quem se despediu de alguém que ama.

Elisabeth Ferraz, de 58 anos, também revolucionou seus dias depois que as duas filhas saíram de casa para fazer faculdade. Sofreu durante um ano, olhando para os quartos vazios e sentindo-se desamparada. O primeiro golpe veio em 2004, quando Olívia, a filha mais velha, saiu de Ribeirão Preto (SP) para estudar em outra cidade. No ano seguinte, Luísa, a caçula, fez o mesmo caminho. “Fiquei muito feliz, é claro, mas achava uma injustiça muito grande perder as meninas bem na idade em que elas tinham virado minhas companheiras”, conta a dona de casa. “Sentia uma tristeza imensa, o coração doía de saudade e eu ficava destruída.”

Elisabeth queria ouvir a voz das filhas, saber o que comeram no café da manhã, ter certeza de que estava tudo bem. Ficava triste quando percebia que, apesar de as duas estarem caminhando sozinhas e realizando seus sonhos, ela continuava sentindo falta das “meninas” em casa. “Às vezes, elas me ligavam e eu atendia chorando de saudade. Sabia que estava fazendo mal a mim e a elas”, diz. O marido, José Luis, tentava amparar a mulher, mas também vivia a dor da separação. “Quando levei cada uma delas na rodoviária, percebi que estavam indo embora, e veio um sentimento de estar perdendo algo”, conta. “No entanto, tenho a convicção de que filho é como passarinho: eles têm de voar sozinhos, apesar da tristeza de quem fica.”

Inconformada com o fato de ficar deprimida enquanto as filhas estavam felizes, Elisabeth resolveu dar a volta por cima. Procurou terapia e foi descobrindo rituais que a ajudaram a superar a sensação da despedida. Com o marido, mergulhou na ioga e estudou filosofias orientais. A relação de 30 anos dos dois entrou em uma nova fase. Juntos, aprofundaram os laços de amizade, confiança e cuidado mútuo. Como os horários em que estão juntos aumentaram, descobriram novas formas de convivência. Procurando ser verdadeira com seus sentimentos, Elisabeth descobriu que o vínculo com as filhas continuava inquebrável - mas passou a ser vivido de outra forma. “Vejo que elas estão felizes, fazendo o que gostam, e me alegro com isso. E sei que o fato de elas estarem em outra cidade não significa que estejam longe do meu coração.”

Mudando a alma de casa

Viver um amor com menos apego foi a lição que o casal aprendeu na marra. Deixar para trás pessoas, sentimentos e experiências é o processo de todas as mudanças da vida - é isso que faz com que os seres humanos sejam capazes de aprender coisas novas. “Toda perda bem trabalhada é um processo de crescimento”, diz a psicóloga Adriana Sartori, que está concluindo na Universidade de São Paulo um estudo sobre a “síndrome do ninho vazio”, nome que recebe o sofrimento dos pais quando os filhos deixam de vez o lar. “Cada vez que perdemos algo, ganhamos outra coisa: perdemos os dentes de leite pelos permanentes, nos despedimos do corpo de criança para entrar no de adulto e deixamos de ser estudantes para virar um profissional. A vida é um processo cíclico de perdas e ganhos”, explica.

E viver a dor e a insegurança que essas mudanças trazem é natural. Os sentimentos de abandono, desamparo e saudade mostram que existe um vínculo com a pessoa ou coisa perdida, que há sentimentos investidos nessa relação. O homem se forma pela convivência com o outro, aprendendo e respondendo a características alheias. Somos uma somatória de todos com quem convivemos. Assim, quando perdemos alguém ou algo importante, é como se um pedaço de nós também morresse. A tristeza, confusão e angústia que a perda traz, chamadas de luto, são a forma encontrada para tentar entender a despedida e descobrir o que fazer com a energia investida em algo que deixou de existir.

“São os vínculos que nos constituem como seres humanos. Quem não tem isso não se apaixona, não tem ídolos, não amadurece emocionalmente. E não sofre ao perder algo”, diz a psicanalista Maria da Penha Lanzoni, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. “Só existe a dor da despedida quando nos importamos com o que foi embora.” E é nessas horas, ao viver perdas que acreditávamos insuperáveis, que nos tornamos mais fortes e adultos. “A vida é um movimento constante entre os vínculos e suas perdas. É com a dor que crescemos e aprendemos a lidar com nós mesmos”, completa Maria.

Deixar ir é... Encarar com alegria e responsabilidade as novas fases da vida, mesmo que cheguem sem avisar. Como Daniela, que se descobriu mãe

O milagre da vida

Viver a despedida e limpar a alma para que o novo chegue é um rito de passagem que abre espaço para outras experiências. Sejam elas previstas ou não. Daniela Moussa, aos 21 anos, passou por isso em novembro do ano passado, quando engravidou sem planejar. Namorando havia alguns meses, no meio da faculdade, morando com a mãe, nunca tinha pensado em ter um filho. “A única coisa que passava pela minha cabeça era: ‘e agora?’. Via toda a minha vida e pensava como seria o meu futuro, bem diferente do que eu pretendia”, conta.

Passou uma semana aos prantos, conversou com o namorado e, juntos, decidiram assumir a criança e contar à família. “Amadureci 20 anos em cinco dias. Estava assustada, planejando uma mudança radical na vida e não sabia se seria capaz de dar conta de uma criança.” Após três meses de conversas, com o apoio dos pais, Daniela e o namorado, Nélson, decidiram se casar. Fizeram uma cerimônia civil em abril que marcou a nova fase. Com a festa, afastaram os temores e se fortaleceram para os últimos meses da gravidez.

Enquanto isso, Daniela aprendeu a comer frutas três vezes por dia e colocou verduras no cardápio. Largou os refrigerantes e resolveu sair menos. Começou a evitar café, lugares barulhentos e ambientes com fumaça. Quando sentiu o primeiro chute na barriga, deu-se conta de que, em seis meses, tinha se tornado uma pessoa diferente. “Até novembro passado, só pensava em mim, na minha felicidade. Hoje, sou eu, meu marido e minha filha. Penso rimeiro neles.”

Seguindo esse raciocínio, o casal mudou-se para a casa dos pais de Nélson, que vão ajudar a cuidar da criança. Foi a forma que encontraram para Daniela conciliar a gravidez com a faculdade de fotografia. Ela despediu-se da casa da mãe chorando, com a certeza de que passou para outro degrau de sua vida. “Eu era uma, agora sou duas. Não era isso que tinha planejado, mas as maiores alegrias vêm assim, inesperadamente.”

"Para que o novo floresça, é preciso que algo morra.
É o que a natureza nos mostra com as estações do ano.
Ignorar isso é perder uma parte crucial da existência"

E então renascer

Sem planejar, Daniela amadureceu, largou a vida de filha para tornar-se mãe e refez sua rota. Para ela, ganho e perda, lágrimas e sorrisos uniram-se no mesmo momento, durante a gestação de um novo ser. “Estamos desacostumados a pensar que para que inícios existam é preciso haver fins”, diz a médica oncologista Dalva Yukie Matsumoto, coordenadora da hospedaria de cuidados paliativos do Hospital do Servidor Público Municipal, em São Paulo. “Para que o novo floresça, é preciso que algo morra. A natureza nos mostra isso com as estações do ano e as gerações que se sucedem. Ignorar essa experiência é deixar de lado uma parte fundamental da existência.”

Aprender a dizer adeus é abrir as portas para a renovação, que constrói a vida e marca os passos de nosso mundo. Enfrentar os tormentos da perda é o único caminho que torna possível abrir-se para as possibilidades e desafios que cada dia oferece. O adeus ao conhecido e confortável traz o frio na barriga que só o novo é capaz de provocar. É assim que as pessoas mudam, amadurecem e atravessam as diferentes fases da vida. Com as transformações e as despedidas vêm as alegrias dos encontros, sensações inesperadas, emoções novas.

“É esse processo que nos torna humanos e amorosos. Olhar para outra pessoa e compartilhar com ela medos e sofrimentos nos iguala”, diz Dalva. “Vida é tentar ser feliz e estar sempre aberto para receber algo diferente. Mas, para isso, é preciso saber lidar com as perdas, que fazem parte da caminhada.” Com coragem para enfrentar a morte, a separação e dar adeus a uma vida planejada, Renata, Elisabeth e Daniela cederam espaço para o desafio da vida. Viveram a dor e descobriram que, dela, também é possível brotar a felicidade.


Fonte: http://revistasorria.com.br/site/edicao/aprendi-a-dizer-adeus.php

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