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sábado, 18 de junho de 2011

Brasileiros no Japão: covardes ou gananciosos?




Prezados amigos,

os brasileiros que vivem e viveram até pouco tempo no Japão têm sido vítimas de um golpe violento. É um soco direto na boca do estômago. Quem retornou ao Brasil é chamado de covarde. Quem ficou, de ganancioso. Ninguém escapa do julgamento de um júri acostumado a decisões precipitadas, que corre para anunciar os resultados de seus esforços inúteis, infrutíferos, improdutivos e, sim, quase sempre injustos.

O terremoto ocorrido no dia 11 de março foi absolutamente assustador. Isso não se discute. Estou em uma cidade há mais de 300 quilômetros do epicentro e tive medo que a casa caísse na minha cabeça, enquanto meu único pensamento era de que não havia outro lugar pra ir. Tudo tremia. Já cobri terremotos em seus epicentros algumas horas depois que aconteceram, mas pela primeira vez fiquei com as pernas bambas.

Em seguida, temos a notícia do aquecimento das usinas nucleares que, a princípio, deixaram todos apavorados imaginando que teríamos uma bomba atômica prestes a explodir.

Então, fato número um: muitas pessoas voltaram ao Brasil porque realmente tiveram muuuuuito medo. Não é fácil encarar um tremor de terra dessa intensidade e a avalanche de boatos que se sucederam em relação à radioatividade. A imprensa mundial contribuiu, e muito, para o desespero de parentes e amigos do outro lado do mundo que desconhecem a geografia do Japão. O “apocalipse” descrito em páginas vermelhas gerou um pânico só comparado a atos terroristas. Pedidos de familiares, ultimatos até, exigiam a volta de seus parentes. Choveram e-mails e passagens aéreas para o êxodo tupiniquim. Temer pela vida não é o mesmo que covardia.
Também é certo que muitos se aproveitaram da oportunidade para deixar para trás as dívidas com impostos, casas, carros e até mesmo luz, água, gás e telefone. E aqui abro parênteses. A crise econômica do final de 2008, início de 2009 em diante levou muitos a regressar ao Brasil. Naquela época, já houve muitos casos de pessoas abandonando casas próprias e carros financiados. Residências foram deixadas com a chave pendurada na porta e muitos automóveis ficaram nos estacionamentos dos aeroportos (!). Nós que permanecemos no Japão sofremos represálias, por exemplo, alguns estudantes não conseguiram empréstimos para pagar a escola (ensino médio particular ou faculdade) e, portanto, foram trabalhar ou embora. As dificuldades para alugar ou comprar um imóvel aumentaram drasticamente. Dessa vez parece ter sido ainda pior, a urgência desculpou a desonestidade desenfreada. A irresponsabilidade de alguns vai novamente recair sobre os que continuam aqui.
E por quê queremos ficar? Muitos me perguntam, “por quê não volta ao Brasil ou vai a qualquer outro país”? Uma ex-aluna me disse: “que dia você vai embora”? Achando que é certo que eu também vá, como tantos outros estrangeiros. Ela ficou espantada quando eu disse que não vou, pelo menos não agora. Não vejo motivos para abandonar o barco. Fico até mesmo por lealdade a este povo que me surpreende com a sua educação e noção de comunidade/civilidade. Também me arrasa quando eles dizem: “vocês têm sorte, têm pra onde ir”.
Alguns dias atrás me pediram para “fazer algo” (como jornalista) porque no Brasil já há uma espécie de “campanha” contra os que querem continuar vivendo aqui. Dizem que alguns afirmam que todos que ficamos devemos “morrer porque só estamos pensando no dinheiro”. Em primeiro lugar, ledo engano, a crise econômica já dura dois anos e não há milionários pelas ruas. Não passamos fome e vivemos com conforto, mas a riqueza, como no Brasil, é para bem poucos.

E se todo aquele que busca uma vida melhor merecesse morrer o mundo todo se esvaziaria. Mas o que é uma “vida melhor”? No meu caso, a tranquilidade de saber que é quase impossível que eu sofra um assalto com uma arma na minha cabeça (como já me aconteceu em São Paulo) já é motivo suficiente. A violência descontrolada me assusta muito mais do que qualquer tsunami e me entristece porque é causada, aí sim, pela ganância de uma elite. Pelo seu descaso que ocasiona uma frustração tão grande e uma total inversão de valores, onde o que vale é ter mais, custe o que custar, ainda que outras vidas. Mas isso já é um outro tema.

As razões para viver neste país são muitas. Há também os que querem enriquecer, não há dúvidas. Mas não é o caso da maioria. Muitos construíram aqui o seu lar. Têm seu trabalho, suas diversões, seus amigos. São imigrantes como tantos dos nossos avós no Brasil. Quem critica, ou tem inveja (porque não conseguiu sair) ou sofre do terrível mal do século: a ignorância. Informações precisas são necessárias para se evitar o pânico e a precipitação. Neste mundo globalizado tudo é muito perto, rápido, deveríamos aproveitar para nos aproximarmos e não disseminarmos o ódio. Deveríamos tirar “vantagem” da comoção geral e voltar os olhos ao que realmente interessa: os rumos da humanidade e como somos tão parecidos e frágeis, independente de raça, credo, país.
Não somos todos vítimas, nem vilões, nem covardes, nem heróis. Apenas seres humanos agindo conforme a necessidade de cada um. Para quem foi ou a quem resolveu ficar, quaisquer que sejam suas razões, os meus sinceros votos de que encontrem a paz que todos necessitamos para sermos felizes.

Se gostaram deste texto, por favor, mandem para os seus amigos e os amigos dos amigos e até para os inimigos (rsrs). Vamos acabar com esse tribunal injusto e essas palavras ácidas que corroem muito mais do que qualquer material radioativo.
Sinceramente,

Hilda Handa
(jornalista e professora residente no Japão há seis anos)

...

Recebi este texto num e-mail a algumas semanas...
Realmente acho que é verdade o que está escrito.
Eu, por exemplo, não sou ganancioso, apenas decidi já a alguns anos que é aqui que quero morar...
E o que tem de errado nisso?!
Outro dia estava comentando com um colega do trabalho que penso no futuro em me naturalizar "japonês", pois assim terei acesso a certas leis e tal...
Este falou que eu "não devia negar minha raça", "cuspir na minha pátria!"...
Se eu decidi morar aqui não seria mais fácil aproveitar de todas as leis, algumas que se limitam aos japoneses?!
O que tem de errado nisso?!
Vai entender...

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